domingo, 21 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS 2014 - MARÇO


MEMÓRIAS 2014
MARÇO

Terça-feira, o dia exato eu não sei.  
Sei, sim, das grades. Dos cadeados.  

Câmera sem foco. Todos são menores de idade. 
Desde muito cedo desamparados pela vida, eles não têm rosto nem sobrenome. 

Música. Versos improvisados nas paredes da reclusão. 
A liberdade é a bola. A bola é a quase-liberdade. 

Reportagem. Memória viva na alma. O ranger estridente dos portões de ferro ainda machuca. Portões de ferro ou de solidão.

- O senhor é famoso?
- Famoso, que nada. Muito menos senhor!
- Mas cê conhece o Ronaldo, moço?
- Já falei com ele uma vez.
- Então o senhor é rico!

Menino bobo, de tão puro. Não sabe que minha riqueza, mesmo, foi aquela tarde abrasadora de terça-feira. Quanto eu imaginei escrever sobre tudo aquilo. Quanto eu imaginei!
Escreveria um livro, se toda a história já não estivesse ali escrita - na palma de cada mão. O facho de luz me interrompeu as ideias e a professora me convidou para entrar. Oficina de caligrafia. "Olha aí, Antônio, é o moço da tevê! Mostra pra ele a cartinha que você escreveu pra sua família. Ficou tão linda, mostra pra ele".  

O Antônio, que Antônio não deve ser, me olhou ressabiado, inseguro, e arrastou o pedacinho de papel colorido até bem perto de mim. Era a letra dele. Era a vida dele em poucas palavras. 

Tenho apenas duas mãos
E o sentimento do mundo
Mas estou cheio de escravos
Minhas lembranças escorrem
e o corpo  transige
na confluência do amor

Era Drummond.

Nenhum comentário: