domingo, 30 de agosto de 2015

O TAXISTA E O SURDO-MUDO

PARTE 1

- Bom dia, amigo!
- Bom dia! Vamos pra Guarulhos, por favor. Aeroporto.
- Claro! Deixa eu só avisar a mulher.
- ...
- Mulher burra! Não me atende.
- ...
- Alô? Oi! Ó, vou demorar duas horas pra voltar. Tô indo pra Cumbica. Tchau.
- ...
- Já avisei logo porque, né, ela cuida do almoço. E fazer supermercado é coisa de mulher, né?
- É?
- Hómi cuida de táxi, mulher de supermercado.
- ...
- Ih, vou mudar a estação do rádio. Não gosto de ouvir esse cara...
- Sério? Por quê?
- Tem voz de bicha. Não dá, não.
Foi uma longa viagem. Mesmo em silêncio. Foram 50 minutos sem conversarmos. Faltavam 2km pro aeroporto quando ele começou a falar sobre traição e abrilhantou ainda mais nossa manhã: "Já foi o tempo em que muié tinha medo de hómi. Essa Lei Maria da Penha protege elas de todo jeito".

PARTE 2

O velhinho parecia honesto, trabalhador e, apesar de não gostar da Maria da Penha, guardava algo de pacato no rosto e na maneira como dirigia.

Eu não queria julga-lo, eu só queria queria compreende-lo. Aquele velhinho, infelizmente, é o retrato de uma fatia imensa da sociedade -- de gente que naturaliza a submissão da mulher e condena os homossexuais "porque Deus não criou Adão e Ivo". Ele era taxista, mas poderia ser jornalista, padeiro, executivo, astronauta e até segurança de boate gay.

Despachei as malas e fui tomar o café da manhã. Se eu desse papo, que outros absurdos ele teria sido capaz de compartilhar comigo? Será que voltaria pra casa, almoçaria como um porco e agrediria a esposa se ela se negasse a lavar a louça?

Enquanto eu conjecturava a desgraça do pensamento ultraconservador, alguém se aproximou às minhas costas. Percebi que vinha na minha direção. Pensei que fosse algum dos amigos que viajaria comigo e, quando levantei o rosto para saudar o companheiro, encontrei um senhor grisalho de cabelos longos e movimentos desajeitados.

Era um surdo-mudo. Resmungava e depositava em todas as mesas uma embalagem pequena, simples e confeccionada com esmero. Parecia um presente, mas era um pedido de socorro. Uma caneta, um chaveirinho do Brasil e um porta-moedas. "Sou surdo, peço sua ajuda. Cinco reais".

Ele não ouvia, mas perambulava na esperança de ser ouvido. Acompanhei a jornada trágica do surdo-mudo com os olhos marejados, ninguém queria uma caneta e um chaveirinho do Brasil. Ninguém queria um porta-moedas - porque pelo gesto curto com que dispensavam a embalagem, queriam dizer, sem ter que dizer nada, que não tinham dinheiro.

Pensei, de novo, no taxista. Lembrei de uma frase famosa e geralmente usada em tom de galhofa: "é melhor ouvir besteira do que ser surdo". Pela primeira vez, o ditado não me fez rir. Aquele homem grisalho e de movimentos desajeitados, cuja alegria custava apenas cinco reais, provavelmente diria, se pudesse dizer algo, que ouvir, ouvir qualquer coisa, não tem preço nenhum.

Passei o dia inteiro atento aos sons que a vida me proporciona.

As turbinas. O trem de pouso. A música alta do sujeito na poltrona ao lado. O choro da criança durante o almoço no restaurante. O grito de gol na televisão. A torneira, a esteira, a besteira. As onomatopeias intermitentes da cidade e do caos. O sotaque mineiro no telefone. A minha própria voz, num segundo, dizendo "eu te amo".

Dormi bem. Um pouco melancólico, é verdade, mas feliz com o privilégio de ouvir o barulho insuportável do encanamento do hotel.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

poema dos passarinhos

Passarinho,
De tanto voar sozinho
bateu asas em busca de um par

Encontrou moça bonita,
Mas, desgraça infinita!.
Ele queria o céu
Ela queria o mar

Amizade, amizade
Mas de tanto bater saudade
Redescobriram o verbo amar

Passaram a chuva e o vento
Mas, bendito momento!,
Moça bonita abraçou as estrelas
Passarinho aprendeu a nadar

quarta-feira, 27 de maio de 2015

"EU SOU CHATO!"

((escrito e publicado no dia 21/05/2015))


Morreu o Zé do Rádio, proclamado o torcedor mais chato do Brasil. Patrimônio do futebol, sujeito simples e cordial. Espirituoso. Guardava o pente fino sempre no bolso pra, de quando em quando, ajeitar o bigode grisalho. "Tô bonito?"; 

Entrevistei-o em 2013 pelo @sportvoficial e tive o privilégio de conhecer um dos melhores personagens do folclore esportivo. Na época, já cansado e distante das arquibancadas, disse que talvez fosse aquela a sua última entrevista. O bom humor não escondia a saúde frágil. "Imagina, Zé, voltarei aqui pra gente gravar a história da sua vida inteira". Ele penteou o bigode mais uma vez e sorriu antes de se despedir. 


Nunca mais voltei.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

#CHUPA!

Uma das coisas mais legais do futebol é a piada, a provocação, a mesa de boteco com uma porção de sarro e um balde cheio de cerveja. Ou o "meme", nos tempos modernos, um exercício de criatividade instantânea e espírito esportivo. Por que não compartilhar o vídeo ou a montagem que sacaneia o seu time eliminado? Não valorizar a inteligência alheia, meu amigo, é reprimir a sua própria inteligência.

Principalmente depois do fim do jogo, é sintomático dividir a atenção entre a tevê e o celular. O grupo no whatsapp já tem 284 mensagens nos últimos 15 minutos. Os times saem de campo, aumento o volume. O suposto craque diz que é assim mesmo, a equipe lutou, o adversário tá de parabéns e agora é pensar na próxima partida pra, se Deus quiser, conquistar os três pontos e retribuir o carinho dessa torcida maravilhosa. Abaixo o volume. Na linha do tempo, pipocam as hashtags de cornetagem, trollagem e cagação de regra.

Dia desses, minha amiga Luana Suzina foi brilhante ao questionar quem é mais chato no Facebook: o povo que discute política como se fosse futebol ou o povo que discute futebol como se fosse política?

Tento encontrar uma boa resposta, mas a linha do tempo segue mais vibrante que o próprio estádio. Os críticos contemporâneos diriam que assistimos ao processo de gourmetização das arquibancadas enquanto se prolifera o sucateamento do espaço público virtual. Seja lá como for, percebo que o clima ficou hostil. De novo. A madrugada ficou pequena.

Uma das coisas mais detestáveis do futebol é leva-lo a sério demais. A piada e o ódio são separados por uma linha tênue, o que me faz desconfiar que o fracasso do time (dos outros) seja mesmo só um pretexto pro sujeito ficar macho quando o amor já não bate à porta.

Parece, e só parece, que é muito #chupa  e pouco pau.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

ANTÔNIO PROVOCADOR


- O que seria da nossa república sem esse cara?

Foi assim que o Dário me respondeu quando, ainda cedo, contei a ele sobre a morte do Abu. O Dário é meu amigo desde o jardim de infância e foi também meu colega de quarto nos anos de faculdade. Foi ele quem me mostrou, em 2003, o único programa que nos fazia ligar a televisão - além do video game e dos jogos de futebol. 

Provocações. A gente abria uma cerveja e ouvia aquele velhinho sisudo falando, gesticulando, quase contracenando diante do entrevistado. A efervescência do mundo acadêmico, novidade pra nós, era um estímulo ao pensamento crítico. Provocações, nesse contexto, simbolizava a contramão do óbvio. Ouvir o velhinho poderia ser um passo importante, quem sabe, para um dia mudarmos o mundo! É verdade: o que seria da nossa república sem esse cara? 

De lá pra cá, o mundo mudou bastante -- mesmo que eu e o Dário não tenhamos feito rigorosamente nada pra isso. De qualquer forma, a mudança permitiu que eu já não ficasse mais esperando pelo programa sentado no sofá da sala. Provocações, há algum tempo, é mais um dos destinos certos de uma "youtube trip" a qualquer dia, qualquer momento, qualquer madrugada introspectiva.  

"Ai de mim..."; o velhinho sisudo continuava ali. Inabalável. Inimitável. Sisudo. Quase sempre assisti ao programa mais por ele e menos pelos entrevistados. Quase nunca consegui prestar atenção em todas as respostas, hipnotizado pela aspereza sadia das perguntas. Sarcasmo. Ironia. Acidez. Na voz e na expressão dramática, o previsível também soava genial e profundo: 

- O que é a vida?
- Como você gostaria de morrer?
- Qual foi a pergunta que eu não fiz e você gostaria que eu tivesse feito?

Depois sempre vinha o abraço, "o único momento falso desse programa", e um pedacinho de literatura. Shakespeare, Verissimo, Brecht, Neruda, Clarice Lispector, Manoel de Barros e outros autores que só fui buscar porque a leitura do velhinho me despertou. Não raras vezes descobri que os textos não eram tão bonitos quanto pareciam na interpretação eloquente, pausada e fascinante que ele conseguia impor. 

Antônio era incomum porque preferia o fracasso ao sucesso. Porque, no meio da apatia e do conformismo, ensinou a cultuar a provocação. Caminhar no incerto. Idolatrar a dúvida.

Ontem à noite, como não fazia há muitos anos, preferi esperar pelo programa sentado no sofá da sala. Como nos tempos de faculdade. Primeiro pra ter certeza que ele não tinha morrido. Depois, mais importante, pra lembrar que a certeza é uma grande bobagem.

Eu gostava do Antônio.

segunda-feira, 23 de março de 2015

O TRISTE FIM DO CHAPEIRO JORGE


- Mas e aí? As pessoas já te reconhecem na rua?

A pergunta é sempre a mesma, seja no almoço de família ou no boteco com os amigos de infância. A resposta também é a mesma há pelo menos dois anos. 

- Claro que não. Deveriam?! 
- Ué, você trabalha na...
- Eu sou repórter, gente, não sou ator de novela. 
- Mas nunca... ninguém... falou nada?
- Nunca. Ninguém. Nada. 

Jamais soube conter o olhar frustrado e a decepção de todos. Eles me imaginavam cercado de seguranças, o corre-corre no shopping, autógrafos, gritinhos histéricos na porta da emissora me pedindo uma selfie. Depois de perceberem que não era bem assim, custavam a acreditar que eu não havia me tornado uma celebridade -- mas continuava um sujeito simplório, dispensável e sem importância alguma. 

Confesso, cá entre nós, que passei a me preocupar. Será que eu precisava de fãs? Será que precisaria bombar meu Instagram e fazer check-in em restaurantes finos? De repente, sei lá, ser parça da boleiragem? A dúvida me corroeu o estômago por muito tempo, de modo que um dia a minha sorte mudou. 

Foi na padaria ali da esquina de casa. Eu mastigava o sanduíche em frente ao balcão quando um rapaz saiu da cozinha e me abordou:

- Licença. O senhor trabalha na tevê?

Olhei assustado. Bati com as mãos no bolso da camisa, procurei pelo crachá que muito provavelmente havia caído. 

- Sim, trabalho. Por quê?
- O meu amigo ali te conhece. Sabe o seu nome e tudo, mas tá com vergonha de vir aqui...

Fiquei sem graça, esbocei um sorriso amarelo enquanto ouvia a ópera que me trazia o compasso da glória. Minha família e meus amigos de infância estavam certos! De repente, o bonachão apareceu limpando as mãos no avental e ajustando a boina com o logotipo da padaria. 

- Thiago Crespo, não é?
- Isso, sou eu...
- Cobriu a Stock Car no final de semana. Brasília. 
- Exato!
- Eu vi. Sempre te vejo por aí, menino. Parabéns!

Agradeci, sem jeito, e apertei as mãos do meu primeiro fã de verdade - alguém que não fosse um parente ou um amigo de infância. Perguntei o nome dele, mas ainda inebriado pela descoberta da fama, não consegui registrar. De qualquer forma, era o chapeiro da padaria ali da esquina de casa. Sujeito beirando os cinquenta anos e os cento e cinquenta quilos. Sorrisão de criança, puro carisma. Boina preta, avental laranja. O melhor sanduíche de rosbife acebolado da região. 

Voltei pra casa e decidi que eu não podia deixar aquele homem sem nome algum. Virou Jorge. Ponto, Tinha cara e jeito de Jorge.

Dali em diante, as refeições naquela padaria se tornaram mais frequentes. Tanto eu quanto ele nos sentíamos mais importantes. Eu, por me achar uma figura notória do jornalismo esportivo; ele, por atender alguém "da televisão" (esse estranho planeta habitado por seres superiores e inatingíveis). 

- E aí, menino!
- Tudo bem, meu amigo?
- Fazendo jogo com o "Que beleza!", hein!
- Ah, sim, o Milton. Privilégio, né?
- Você ainda vai longe!

O Jorge sempre fazia questão de deixar o que estivesse fazendo para me servir. A piscadela era o sinal de cumplicidade. O pedaço de torta era sempre um pouco maior. O suco de melancia tinha sempre mais melancia. Com o tempo, percebi que ele também colocava tomate seco no sanduíche sem me cobrar o adicional de R$1,50. E, não bastassem os elogios e os exageros, ninguém jamais chapeou o rosbife com cebola como o meu amigo Jorge.

- E aí, menino!
- Salve, companheiro, tudo bem?
- Tirando o meu time, né?
- Pois é, fiz o jogo deles ontem à tarde.
- Eu vi!

Às vezes eu não entrava na padaria, mas quase todos os dias passava ali na frente a caminho de casa. E lá estava ele, parece que à minha espera, sempre acenando com a mão rechonchuda e os dedos engordurados. Gritava de longe. 

- Ituano e Linense! Que joguinho, hein?
- Grande Jorge! Você não perde um!
- Gostei da brincadeira com o narrador no final do jogo. Você tá crescendo, garoto!

Estávamos tão íntimos que eu já não tinha coragem de perguntar o nome dele depois de tantos meses de amizade. Tampouco, aliás, tinha pudor de chama-lo de Jorge. Fato é que ele nunca me corrigiu. Talvez fosse Jorge, mesmo. 

Quando eu voltava exausto do trabalho, pensando se tudo aquilo realmente valia a pena, lá estava ele para fazer com que eu me sentisse o Mauro Naves. Me recebia sempre com o meu último jogo na ponta da língua, orgulhoso:  

- O técnico dos caras foi gente boa contigo, hein?
- Qual deles, Jorge?
- São Caetano e Tupi. Você foi firme na primeira pergunta!

Cacete. Meu pai, que pra me ver assiste até ao amistoso de peteca paralímpica sub-19, naquele dia não assistiu ao São Caetano e Tupi.  Minha mãe, que deixa a comida queimando no forno pra me ouvir entrando ao vivo por telefone, também não viu São Caetano e Tupi. Mas o Jorge, meu telespectador mais fiel, ele sim! 

Até que um dia o Jorge sumiu. De repente, pensei, mudou de horário. Fui de manhã, de tarde e de noite na padaria. Nada. De repente são as merecidas férias. Mais de um mês depois, nada do Jorge.

Os sanduíches não eram os mesmos. Os pedaços de torta diminuíram. O suco de melancia voltou a ser diluído em água. Passaram a me cobrar pelo tomate seco. Voltei a ser alguém anônimo, simplório e dispensável.

Por mais quatro meses frequentei a padaria ali da esquina de casa e não tive coragem de perguntar por ele. Neste domingo, depois de almoçar, fiquei zanzando em volta do caixa e respirei fundo...

- Moça, perdão, mas aquele chapeiro...
- O grandão?
- Ele mesmo! Cadê?
- Que falta faz o Argemiro. Pessoal chamava de Mirão...

Os olhos baixos e a voz desolada da funcionária sugeriam o pior.

- M.. Mas...Mas ele...
- Mandaram ele embora, moço.
- Poxa vida!
- Entrou de férias e não voltou mais.
- Não acredito. Que falta faz o Mirão...

Peguei o recibo, guardei a carteira no bolso e olhei para trás. Num delírio fraternal, esperei encontrar o meu amigo ali no balcão. Só encontrei um magricela vestindo o avental laranja três vezes maior.

Quero que o Jorge esteja bem. Ele pode até mudar o nome -- chamar Argemiro, se quiser. Pode mudar o emprego, os clientes. Pode mudar o ponto do rosbife acebolado. Mas, pelo bem da nossa amizade, espero que não mude o canal da televisão.



quarta-feira, 4 de março de 2015

MEIO CHEIO, MEIO VAZIO


Ela pediu um copo d'água. 

- Se é que tem, né? Porque ouvi dizer que a geladeira dessa casa tá sempre vazia. 

O sotaque debochado e apaixonante não pedia apenas pra matar a sede. Antes que eu pudesse alcançar o armário, ela agachou no chão da cozinha e me desabotoou enquanto os olhos mediam minha surpresa com o calor a que ela se referia.  

- Promete que isso não vai ser crônica?
- Oi?
- Por favor.
- Eu prometo, claro.  

Quando ela se levantou,  sugeri minha cama.

- Ir pro seu quarto? De jeito nenhum.
- A essa hora? O que tem? 
- Perigoso demais. 
- Só queria te mostrar minha coleção de bobagens. 
- Na hora certa cê mostra. 
- Tudo o que tem ali significa muito pra mim. 
- E...? 
- É sua chance de me conhecer melhor.
- Tá bom. Vou sozinha.

Ela entrou na ponta dos pés, sapatilha nas mãos, sempre me vigiando pra ter certeza de que eu respeitava a condição de manter a distância. Sorriu depois de encontrar Lennon e Mccartney, mas desconfio que não reconheceu Bob Dylan na moldura ao lado. Olhou pra estante de livros, olhos embriagados e flamejantes, depois pra minha coleção de bobagens que significam muito pra mim. 

- Vem. 
- Ué...
- Agora pode.
- Ah, sim. Muito gentil, você.  
- Olha! De quem é a baqueta?!
- Minha.
- Não...
- Peguei no último show dos Paralamas. 
- No meio da multidão?
- O Barone jogou, só estiquei o braço. 

- Que demais!
- É! Tenho uma palheta do Herbert, também, com o nome dele escrito e tudo.


- Eliane Brum...
- Que tem ela?
- Você ama essa mulher.
- Ih. Muito cedo pra ter ciúmes, não?
- Geminiana. Sou possessiva!   
- Posso escolher um trecho do livro que me lembra você?
- Posso deitar no seu colo?
- E se a gente deitasse, então, sei lá...
- Nós dois?
- Aham. Assim. 
- Para. 
- Que foi?
- Eu falei que isso não ia d...
- Ssshhh. 
- Promete que não vai ter crônica? 
- Eu prometo, claro.

Quando acordei, a cama era só perfume e solidão. Nenhum bilhete, nenhum vestígio que pudesse inspirar a palavra escrita. Fazia muito calor, a felicidade era um copo d'água. 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

QUATRO MINUTOS


Desculpa, desencontramos. Só faltam quatro minutos pra terminar o seu dia.

Cheguei de viagem agora, dispersei as malas no chão do quarto e lembrei com saudade de alguma coisa que eu já não tenho certeza se aconteceu; daquele tempo em que essa cama também foi sua. Daquele abraço que eu ainda não aprendi a trazer de volta. Da nossa última vez.

Procurei um livro na estante. Encontrei um pedacinho rasgado de papel com a sua letra e o seu recado: "Foi impossível não me lembrar de você! Boa viagem!".

Desculpa, desencontramos. É o preço da liberdade que a gente sempre buscou, de tudo o que a gente escolheu amar. Olha, eu sei. É que eu vou, mas eu sempre volto. Ainda dá tempo de te desejar...? Digo, te desejar coisas boas? Eu queria fazer mais um voto nessa lista de blablablás: inquietude e paz de espírito. Juntos. Equilibrados. Ah! Brilho nos olhos, por favor, nesses olhos às vezes cinzas e às vezes de avelã.

Desculpa, mas, afinal, somos eterno desencontro. Somos feitos pra não ser. Ou, quem sabe, pra ser apenas de vez em quando. Se fosse pra sempre, não poderia ser de verdade. Se é de verdade, não pode ser pra sempre.

Você é assim. Meu amor ao contrário.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

MINHA PEQUENA ANDRESSA

Amigos,

Amo como jamais amei. É sentimento. 

Ela me fez algo que eu jamais imaginei que alguém ainda pudesse fazer: resgatou minha esperança nos seres humanos. 

Nossa história é linda, costurada por detalhes prosaicos e imprevisíveis (como, afinal, é o amor de verdade). Tudo começou quando o sinal da internet lá em casa caiu e não voltou mais. Fiquei um, dois, três, SEIS dias sem acesso à rede. A gente sobrevive se faltar água na geladeira (e invariavelmente falta), mas viver sem internet é pedir muita coisa. 

Resolvi ligar na operadora que nos presta o serviço e avisar que o serviço não presta. Uma, duas, três, DEZ vezes. Derrubaram a ligação, disseram que o sistema estava inoperante, pediram que eu desconectasse o cabo da tomada e esperasse por pelo menos cinco segundos. Esperei cento e quarenta e quatro horas. O sinal, claro, não voltou. 

O Henrique, que mora comigo, reclamou via twitter. Pediram os nossos dados cadastrais e prometeram entrar em contato. Não entraram. Resolvi apelar à última e mais produtiva instância, a ANATEL. Não tem erro, nunca teve. Liguei uma, duas, três vezes... e a ANATEL, por mensagens gravadas de voz, me pedia pra tentar mais tarde - todos os atendentes estavam ocupados naquele momento. Quem poderia me defender, se até o Chapolim já morreu? Num ato de bravura e masoquismo, liguei de novo pra operadora. Depois de digitar dezenas de números e ouvir um robô por cinco minutos, alguém finalmente atendeu do outro lado da linha:

- Andressa, boa tarde, com quem eu falo?

Mais uma infeliz, pensei. Mais uma desgraçada que vai arruinar minha paciência e roubar o meu tempo. Mais uma caralhuda filha da puta, como a Judith, como qualquer outro atendente de telemarketing. Eles são todos iguais.

- Andressa, boa tarde, com quem eu falo?
- Henrique. 

Menti. O Henrique é o titular do serviço - e preferi me passar por ele a fim de evitar que a Andressa escapasse do meu problema. Você também já passou por isso: "O único que pode estar solicitando a revisão dos procedimentos operacionais, no caso, senhor, é o titular do serviço". Passei o CPF do Henrique, o nome completo do Henrique e tentei fazer a voz do Henrique. Estava armado até os dentes, munido do costumeiro ódio que nos consome nesses momentos.   

- Vou checar todos os dados da sua conexão, Sr. Henrique. A ligação vai ficar muda, mas o senhor pode me chamar se precisar de qualquer coisa. 
  
Andressa era diferente. Não usou o gerúndio nenhuma vez. Nenhuma! Tinha doçura na voz, não apenas por causa do timbre agudo, mas porque dava pra perceber que ela sorria enquanto falava. Demorou apenas um minuto e meio para que voltasse.

- Sr. Henrique, realmente não há sinal de conexão por aqui. Seu modem está com problemas.
- Imaginei...
- Vamos agendar uma visita?
- Quantos dias úteis? Hoje é sexta...
- Hoje mesmo! Só me confirma o seu endereço, por gentileza...

E quando eu acreditava na pureza e na eficiência da Andressa, a ligação caiu. FILHOS DA PUTA! SÃO TODOS IGUAIS!!!! 

Mal tive tempo de praguejar contra a pobre-diaba, meu telefone tocou. Era a Andressa. 

- Sr. Henrique? Perdão, a ligação caiu.
- Imagina, vamos lá...
- Nossa! Seis dias, Sr. Henrique? Não consigo me imaginar seis dias sem internet...  

Me senti culpado. Andressa se solidarizava com a minha dor e eu mentia o meu nome pra ela por pressupor que ela agiria como todos os outros. Que preciosidade, que exemplo de funcionária, que mulher sensível! Já podia imaginar a silhueta bem desenhada do rosto fino, os traços precisos e delicados, olhos brilhosos e afáveis, claros ou escuros, tanto faz. 

A ligação caiu de novo. Andressa era um engodo, uma vagabunda cínica. O telefone tocou mais uma vez. Andressa era só amor. Andressa que era mulher de verdade! 

- Sr. Henrique, o senhor tem e-mail?
- Tenho, sim, pode anotar?
- Às suas ordens, Sr. Henrique.
- thiago, ponto, crespo, arroba... 
- ...
- Thiago é o rapaz que mora comigo. Pode ser o dele? Minha caixa é do Zipmail, sabe como é... 

- Claro, Sr. Henrique. 

Andressa era só carisma. Muito provavelmente percebeu minha fraude, mas manteve a elegância e a simpatia. Agendamos a visita e eu não tinha pressa que a ligação acabasse.  

- Mais alguma dúvida? Alguma outra coisa em que eu possa ajudar, Sr. Henrique?

- Por favor, Andressa. Deixa disso. Não precisa me chamar de senhor. Pra que tanta formalidade entre nós, hã? Deixa de ser protocolar e assume de vez que você também quer. Permitamo-nos, minha pequena Andressa! Deixemos que a vida jorre, que a vida escorra! Além do mais, você já tem o meu endereço completo aí no sistema. Tira esse fone da orelha, tira tudo, vem pra cá... 

Claro que eu não disse isso, mas fiquei pensando em dizer -- e nesses breves segundos de silêncio, Andressa sentiu minha falta.

- Alô? Sr. Henrique?

- Eu só queria te elogiar, Andressa: nunca fui tão bem atendido nesse tipo de serviço. Você sabe que isso é muito difícil, vocês têm fama de...

- É, eu sei - ela riu, sem jeito. 
- Você me ligou de volta, Andressa! Duas vezes! Você é das raras, sabia?
- Muito obrigada, Sr. Henrique.
- Você não usou o gerúndio, menina! Você foi perfeita!

- Muito obrigado, Sr. Henrique. Peço que o senhor, então, por gentileza, responda à nossa pesquisa de satisfação na sequência. A operadora agradece sua ligação, tenha um bom dia.

- Andressa? Calma! Eu quero que a operadora se foda. Eu só quero você, Andressa! Me escut...Andressa?!

Apertei 1, para "muito satisfeito", e desliguei o telefone completamente decepcionado. Andressa ignorou meu cortejo, recusou minhas palavras sinceras e humanas; relegou nosso amor, enfim, ao buraco negro deste deus invisível que é o "sistema". Andressa se despediu do nosso romance meteórico com a impessoalidade típica dos atendentes de telemarketing. Eles são todos iguais.  

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

CRÔNICA DE ANO NOVO


Meus amigos, é hoje! Feliz Ano Novo!

Porque nada que se propõe a ser Novo, assim, começando em maiúsculo, pode começar numa quinta-feira. Ninguém deixou de beber nos últimos quatro dias. Pelo contrário: a gente bebeu tudo o que podia como se o mundo fosse acabar - e não como se o ano estivesse começando. Ninguém deixou de comer a gordurinha da carne no churrasco do final de semana. Ninguém leu mais. Ninguém perdeu menos tempo no celular. 

Na última quinta, portanto, 2015 começou sem ter começado. Deixamos tudo pra hoje, que é o dia-mundial-dos-novos-projetos-elevado-ao-quadrado. A primeira segunda-feira do Ano Novo! O momento certo do recomeço. Se não for hoje, a partir de agora, pra já, não é mais. A gente só não sabia direito, naquela hora, à meia-noite, que é muito bonito fazer promessas e acreditar em todas elas quando você está bêbado. É fácil pensar em hábitos mais saudáveis, como acordar cedo, por exemplo, quando você não tem hora pra sair da cama. 

Só que hoje, a despeito de todas as promessas, de todo o planejamento rabiscado no caderninho, foi inevitável acordar com o barulho do despertador e pensar, caralho, que merda, hoje é segunda-feira, vai começar tudo de novo, puta-que-me-pariu. 

Eu mesmo, que passei a madrugada entre essa croniqueta e o esmartefone, dormi duas horas e meia. Acordei puto, cansado e sem esperança alguma. Antes de escovar os dentes, olhei no espelho e prometi que nem por um caralho eu volto hoje pra porra da academia.

Cuspi o creme dental e os palavrões. Enxuguei o rosto. Tomei banho. Pensei, renovado, que pelo menos eu comecei o ano cumprindo a promessa de escrever mais. O problema é que isso me levou a descumprir a promessa de dormir oito horas por dia. E se hoje eu já não dormi essas oito horas, não foi só porque eu escrevi mais; foi também porque eu descumpri uma outra promessa: me dispersei e perdi muito tempo no celular. Mas também só perdi porque tava cumprindo a promessa de dar mais atenção aos amigos. Tá certo, a promessa  de verdade, mesmo, era encontra-los mais pessoalmente e menos virtualmente. Mas aí eu descumpriria a promessa de só beber uma vez durante a semana, evitar fritura e ler todas as noites antes de dormir. Putz. Cumprir tanta coisa seria descumprir a promessa de ser feliz. 

Hoje, de fato, começa tudo de novo -- novo, dessa vez, em minúsculo. Porque "começar tudo de novo" significa exatamente aquilo que a gente não queria imaginar na última quinta-feira: as coisas vão continuar assim, como sempre foram.