sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

MINHA PEQUENA ANDRESSA

Amigos,

Amo como jamais amei. É sentimento. 

Ela me fez algo que eu jamais imaginei que alguém ainda pudesse fazer: resgatou minha esperança nos seres humanos. 

Nossa história é linda, costurada por detalhes prosaicos e imprevisíveis (como, afinal, é o amor de verdade). Tudo começou quando o sinal da internet lá em casa caiu e não voltou mais. Fiquei um, dois, três, SEIS dias sem acesso à rede. A gente sobrevive se faltar água na geladeira (e invariavelmente falta), mas viver sem internet é pedir muita coisa. 

Resolvi ligar na operadora que nos presta o serviço e avisar que o serviço não presta. Uma, duas, três, DEZ vezes. Derrubaram a ligação, disseram que o sistema estava inoperante, pediram que eu desconectasse o cabo da tomada e esperasse por pelo menos cinco segundos. Esperei cento e quarenta e quatro horas. O sinal, claro, não voltou. 

O Henrique, que mora comigo, reclamou via twitter. Pediram os nossos dados cadastrais e prometeram entrar em contato. Não entraram. Resolvi apelar à última e mais produtiva instância, a ANATEL. Não tem erro, nunca teve. Liguei uma, duas, três vezes... e a ANATEL, por mensagens gravadas de voz, me pedia pra tentar mais tarde - todos os atendentes estavam ocupados naquele momento. Quem poderia me defender, se até o Chapolim já morreu? Num ato de bravura e masoquismo, liguei de novo pra operadora. Depois de digitar dezenas de números e ouvir um robô por cinco minutos, alguém finalmente atendeu do outro lado da linha:

- Andressa, boa tarde, com quem eu falo?

Mais uma infeliz, pensei. Mais uma desgraçada que vai arruinar minha paciência e roubar o meu tempo. Mais uma caralhuda filha da puta, como a Judith, como qualquer outro atendente de telemarketing. Eles são todos iguais.

- Andressa, boa tarde, com quem eu falo?
- Henrique. 

Menti. O Henrique é o titular do serviço - e preferi me passar por ele a fim de evitar que a Andressa escapasse do meu problema. Você também já passou por isso: "O único que pode estar solicitando a revisão dos procedimentos operacionais, no caso, senhor, é o titular do serviço". Passei o CPF do Henrique, o nome completo do Henrique e tentei fazer a voz do Henrique. Estava armado até os dentes, munido do costumeiro ódio que nos consome nesses momentos.   

- Vou checar todos os dados da sua conexão, Sr. Henrique. A ligação vai ficar muda, mas o senhor pode me chamar se precisar de qualquer coisa. 
  
Andressa era diferente. Não usou o gerúndio nenhuma vez. Nenhuma! Tinha doçura na voz, não apenas por causa do timbre agudo, mas porque dava pra perceber que ela sorria enquanto falava. Demorou apenas um minuto e meio para que voltasse.

- Sr. Henrique, realmente não há sinal de conexão por aqui. Seu modem está com problemas.
- Imaginei...
- Vamos agendar uma visita?
- Quantos dias úteis? Hoje é sexta...
- Hoje mesmo! Só me confirma o seu endereço, por gentileza...

E quando eu acreditava na pureza e na eficiência da Andressa, a ligação caiu. FILHOS DA PUTA! SÃO TODOS IGUAIS!!!! 

Mal tive tempo de praguejar contra a pobre-diaba, meu telefone tocou. Era a Andressa. 

- Sr. Henrique? Perdão, a ligação caiu.
- Imagina, vamos lá...
- Nossa! Seis dias, Sr. Henrique? Não consigo me imaginar seis dias sem internet...  

Me senti culpado. Andressa se solidarizava com a minha dor e eu mentia o meu nome pra ela por pressupor que ela agiria como todos os outros. Que preciosidade, que exemplo de funcionária, que mulher sensível! Já podia imaginar a silhueta bem desenhada do rosto fino, os traços precisos e delicados, olhos brilhosos e afáveis, claros ou escuros, tanto faz. 

A ligação caiu de novo. Andressa era um engodo, uma vagabunda cínica. O telefone tocou mais uma vez. Andressa era só amor. Andressa que era mulher de verdade! 

- Sr. Henrique, o senhor tem e-mail?
- Tenho, sim, pode anotar?
- Às suas ordens, Sr. Henrique.
- thiago, ponto, crespo, arroba... 
- ...
- Thiago é o rapaz que mora comigo. Pode ser o dele? Minha caixa é do Zipmail, sabe como é... 

- Claro, Sr. Henrique. 

Andressa era só carisma. Muito provavelmente percebeu minha fraude, mas manteve a elegância e a simpatia. Agendamos a visita e eu não tinha pressa que a ligação acabasse.  

- Mais alguma dúvida? Alguma outra coisa em que eu possa ajudar, Sr. Henrique?

- Por favor, Andressa. Deixa disso. Não precisa me chamar de senhor. Pra que tanta formalidade entre nós, hã? Deixa de ser protocolar e assume de vez que você também quer. Permitamo-nos, minha pequena Andressa! Deixemos que a vida jorre, que a vida escorra! Além do mais, você já tem o meu endereço completo aí no sistema. Tira esse fone da orelha, tira tudo, vem pra cá... 

Claro que eu não disse isso, mas fiquei pensando em dizer -- e nesses breves segundos de silêncio, Andressa sentiu minha falta.

- Alô? Sr. Henrique?

- Eu só queria te elogiar, Andressa: nunca fui tão bem atendido nesse tipo de serviço. Você sabe que isso é muito difícil, vocês têm fama de...

- É, eu sei - ela riu, sem jeito. 
- Você me ligou de volta, Andressa! Duas vezes! Você é das raras, sabia?
- Muito obrigada, Sr. Henrique.
- Você não usou o gerúndio, menina! Você foi perfeita!

- Muito obrigado, Sr. Henrique. Peço que o senhor, então, por gentileza, responda à nossa pesquisa de satisfação na sequência. A operadora agradece sua ligação, tenha um bom dia.

- Andressa? Calma! Eu quero que a operadora se foda. Eu só quero você, Andressa! Me escut...Andressa?!

Apertei 1, para "muito satisfeito", e desliguei o telefone completamente decepcionado. Andressa ignorou meu cortejo, recusou minhas palavras sinceras e humanas; relegou nosso amor, enfim, ao buraco negro deste deus invisível que é o "sistema". Andressa se despediu do nosso romance meteórico com a impessoalidade típica dos atendentes de telemarketing. Eles são todos iguais.  

Um comentário:

sofia disse...

caralho, genial. adorei.

se atingir um número suficiente de compartilhamentos no facebook, quem sabe a própria andressa não leia e vá te visitar?