quarta-feira, 4 de março de 2015

MEIO CHEIO, MEIO VAZIO


Ela pediu um copo d'água. 

- Se é que tem, né? Porque ouvi dizer que a geladeira dessa casa tá sempre vazia. 

O sotaque debochado e apaixonante não pedia apenas pra matar a sede. Antes que eu pudesse alcançar o armário, ela agachou no chão da cozinha e me desabotoou enquanto os olhos mediam minha surpresa com o calor a que ela se referia.  

- Promete que isso não vai ser crônica?
- Oi?
- Por favor.
- Eu prometo, claro.  

Quando ela se levantou,  sugeri minha cama.

- Ir pro seu quarto? De jeito nenhum.
- A essa hora? O que tem? 
- Perigoso demais. 
- Só queria te mostrar minha coleção de bobagens. 
- Na hora certa cê mostra. 
- Tudo o que tem ali significa muito pra mim. 
- E...? 
- É sua chance de me conhecer melhor.
- Tá bom. Vou sozinha.

Ela entrou na ponta dos pés, sapatilha nas mãos, sempre me vigiando pra ter certeza de que eu respeitava a condição de manter a distância. Sorriu depois de encontrar Lennon e Mccartney, mas desconfio que não reconheceu Bob Dylan na moldura ao lado. Olhou pra estante de livros, olhos embriagados e flamejantes, depois pra minha coleção de bobagens que significam muito pra mim. 

- Vem. 
- Ué...
- Agora pode.
- Ah, sim. Muito gentil, você.  
- Olha! De quem é a baqueta?!
- Minha.
- Não...
- Peguei no último show dos Paralamas. 
- No meio da multidão?
- O Barone jogou, só estiquei o braço. 

- Que demais!
- É! Tenho uma palheta do Herbert, também, com o nome dele escrito e tudo.


- Eliane Brum...
- Que tem ela?
- Você ama essa mulher.
- Ih. Muito cedo pra ter ciúmes, não?
- Geminiana. Sou possessiva!   
- Posso escolher um trecho do livro que me lembra você?
- Posso deitar no seu colo?
- E se a gente deitasse, então, sei lá...
- Nós dois?
- Aham. Assim. 
- Para. 
- Que foi?
- Eu falei que isso não ia d...
- Ssshhh. 
- Promete que não vai ter crônica? 
- Eu prometo, claro.

Quando acordei, a cama era só perfume e solidão. Nenhum bilhete, nenhum vestígio que pudesse inspirar a palavra escrita. Fazia muito calor, a felicidade era um copo d'água. 

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