segunda-feira, 23 de março de 2015

O TRISTE FIM DO CHAPEIRO JORGE


- Mas e aí? As pessoas já te reconhecem na rua?

A pergunta é sempre a mesma, seja no almoço de família ou no boteco com os amigos de infância. A resposta também é a mesma há pelo menos dois anos. 

- Claro que não. Deveriam?! 
- Ué, você trabalha na...
- Eu sou repórter, gente, não sou ator de novela. 
- Mas nunca... ninguém... falou nada?
- Nunca. Ninguém. Nada. 

Jamais soube conter o olhar frustrado e a decepção de todos. Eles me imaginavam cercado de seguranças, o corre-corre no shopping, autógrafos, gritinhos histéricos na porta da emissora me pedindo uma selfie. Depois de perceberem que não era bem assim, custavam a acreditar que eu não havia me tornado uma celebridade -- mas continuava um sujeito simplório, dispensável e sem importância alguma. 

Confesso, cá entre nós, que passei a me preocupar. Será que eu precisava de fãs? Será que precisaria bombar meu Instagram e fazer check-in em restaurantes finos? De repente, sei lá, ser parça da boleiragem? A dúvida me corroeu o estômago por muito tempo, de modo que um dia a minha sorte mudou. 

Foi na padaria ali da esquina de casa. Eu mastigava o sanduíche em frente ao balcão quando um rapaz saiu da cozinha e me abordou:

- Licença. O senhor trabalha na tevê?

Olhei assustado. Bati com as mãos no bolso da camisa, procurei pelo crachá que muito provavelmente havia caído. 

- Sim, trabalho. Por quê?
- O meu amigo ali te conhece. Sabe o seu nome e tudo, mas tá com vergonha de vir aqui...

Fiquei sem graça, esbocei um sorriso amarelo enquanto ouvia a ópera que me trazia o compasso da glória. Minha família e meus amigos de infância estavam certos! De repente, o bonachão apareceu limpando as mãos no avental e ajustando a boina com o logotipo da padaria. 

- Thiago Crespo, não é?
- Isso, sou eu...
- Cobriu a Stock Car no final de semana. Brasília. 
- Exato!
- Eu vi. Sempre te vejo por aí, menino. Parabéns!

Agradeci, sem jeito, e apertei as mãos do meu primeiro fã de verdade - alguém que não fosse um parente ou um amigo de infância. Perguntei o nome dele, mas ainda inebriado pela descoberta da fama, não consegui registrar. De qualquer forma, era o chapeiro da padaria ali da esquina de casa. Sujeito beirando os cinquenta anos e os cento e cinquenta quilos. Sorrisão de criança, puro carisma. Boina preta, avental laranja. O melhor sanduíche de rosbife acebolado da região. 

Voltei pra casa e decidi que eu não podia deixar aquele homem sem nome algum. Virou Jorge. Ponto, Tinha cara e jeito de Jorge.

Dali em diante, as refeições naquela padaria se tornaram mais frequentes. Tanto eu quanto ele nos sentíamos mais importantes. Eu, por me achar uma figura notória do jornalismo esportivo; ele, por atender alguém "da televisão" (esse estranho planeta habitado por seres superiores e inatingíveis). 

- E aí, menino!
- Tudo bem, meu amigo?
- Fazendo jogo com o "Que beleza!", hein!
- Ah, sim, o Milton. Privilégio, né?
- Você ainda vai longe!

O Jorge sempre fazia questão de deixar o que estivesse fazendo para me servir. A piscadela era o sinal de cumplicidade. O pedaço de torta era sempre um pouco maior. O suco de melancia tinha sempre mais melancia. Com o tempo, percebi que ele também colocava tomate seco no sanduíche sem me cobrar o adicional de R$1,50. E, não bastassem os elogios e os exageros, ninguém jamais chapeou o rosbife com cebola como o meu amigo Jorge.

- E aí, menino!
- Salve, companheiro, tudo bem?
- Tirando o meu time, né?
- Pois é, fiz o jogo deles ontem à tarde.
- Eu vi!

Às vezes eu não entrava na padaria, mas quase todos os dias passava ali na frente a caminho de casa. E lá estava ele, parece que à minha espera, sempre acenando com a mão rechonchuda e os dedos engordurados. Gritava de longe. 

- Ituano e Linense! Que joguinho, hein?
- Grande Jorge! Você não perde um!
- Gostei da brincadeira com o narrador no final do jogo. Você tá crescendo, garoto!

Estávamos tão íntimos que eu já não tinha coragem de perguntar o nome dele depois de tantos meses de amizade. Tampouco, aliás, tinha pudor de chama-lo de Jorge. Fato é que ele nunca me corrigiu. Talvez fosse Jorge, mesmo. 

Quando eu voltava exausto do trabalho, pensando se tudo aquilo realmente valia a pena, lá estava ele para fazer com que eu me sentisse o Mauro Naves. Me recebia sempre com o meu último jogo na ponta da língua, orgulhoso:  

- O técnico dos caras foi gente boa contigo, hein?
- Qual deles, Jorge?
- São Caetano e Tupi. Você foi firme na primeira pergunta!

Cacete. Meu pai, que pra me ver assiste até ao amistoso de peteca paralímpica sub-19, naquele dia não assistiu ao São Caetano e Tupi.  Minha mãe, que deixa a comida queimando no forno pra me ouvir entrando ao vivo por telefone, também não viu São Caetano e Tupi. Mas o Jorge, meu telespectador mais fiel, ele sim! 

Até que um dia o Jorge sumiu. De repente, pensei, mudou de horário. Fui de manhã, de tarde e de noite na padaria. Nada. De repente são as merecidas férias. Mais de um mês depois, nada do Jorge.

Os sanduíches não eram os mesmos. Os pedaços de torta diminuíram. O suco de melancia voltou a ser diluído em água. Passaram a me cobrar pelo tomate seco. Voltei a ser alguém anônimo, simplório e dispensável.

Por mais quatro meses frequentei a padaria ali da esquina de casa e não tive coragem de perguntar por ele. Neste domingo, depois de almoçar, fiquei zanzando em volta do caixa e respirei fundo...

- Moça, perdão, mas aquele chapeiro...
- O grandão?
- Ele mesmo! Cadê?
- Que falta faz o Argemiro. Pessoal chamava de Mirão...

Os olhos baixos e a voz desolada da funcionária sugeriam o pior.

- M.. Mas...Mas ele...
- Mandaram ele embora, moço.
- Poxa vida!
- Entrou de férias e não voltou mais.
- Não acredito. Que falta faz o Mirão...

Peguei o recibo, guardei a carteira no bolso e olhei para trás. Num delírio fraternal, esperei encontrar o meu amigo ali no balcão. Só encontrei um magricela vestindo o avental laranja três vezes maior.

Quero que o Jorge esteja bem. Ele pode até mudar o nome -- chamar Argemiro, se quiser. Pode mudar o emprego, os clientes. Pode mudar o ponto do rosbife acebolado. Mas, pelo bem da nossa amizade, espero que não mude o canal da televisão.



Um comentário:

Thairine Melinski disse...

Quando avistei o título logo pensei: "iiiih, vem coisa triste por aí!" Realmente até veio, o suco voltou a ser diluído, o tomate seco passou a ser cobrado, sabores - que uma maioria detém em sua memória gustativa, bem certo - mas no seu caso era diferente. Diferente por te proporcionar algumas respostas de uma questão antes feita por si mesmo, embora tenha sido incitada por familiares e amigos. Singular no sentido de a melancia e o tomate se tornarem gostos de uma amizade despretensiosa feita logo ali na esquina de sua casa. Isso é muito bonito! Uma pena o Jorge ter sumido, uma pena também você não levar mais aquele papo agradável enquanto come seu sanduíche, mas... ah! Algumas pessoas aparecem e desaparecem mesmo de nosso dia a dia, elas trazem respostas que antes não poderiam ser sanadas por alguém tão de perto. Tenha certeza que outros chapeiros virão!E o fato de você prestar atenção e aprender algo com os "chapeiros" é algo que dá beleza à sua história.