quarta-feira, 29 de abril de 2015

ANTÔNIO PROVOCADOR


- O que seria da nossa república sem esse cara?

Foi assim que o Dário me respondeu quando, ainda cedo, contei a ele sobre a morte do Abu. O Dário é meu amigo desde o jardim de infância e foi também meu colega de quarto nos anos de faculdade. Foi ele quem me mostrou, em 2003, o único programa que nos fazia ligar a televisão - além do video game e dos jogos de futebol. 

Provocações. A gente abria uma cerveja e ouvia aquele velhinho sisudo falando, gesticulando, quase contracenando diante do entrevistado. A efervescência do mundo acadêmico, novidade pra nós, era um estímulo ao pensamento crítico. Provocações, nesse contexto, simbolizava a contramão do óbvio. Ouvir o velhinho poderia ser um passo importante, quem sabe, para um dia mudarmos o mundo! É verdade: o que seria da nossa república sem esse cara? 

De lá pra cá, o mundo mudou bastante -- mesmo que eu e o Dário não tenhamos feito rigorosamente nada pra isso. De qualquer forma, a mudança permitiu que eu já não ficasse mais esperando pelo programa sentado no sofá da sala. Provocações, há algum tempo, é mais um dos destinos certos de uma "youtube trip" a qualquer dia, qualquer momento, qualquer madrugada introspectiva.  

"Ai de mim..."; o velhinho sisudo continuava ali. Inabalável. Inimitável. Sisudo. Quase sempre assisti ao programa mais por ele e menos pelos entrevistados. Quase nunca consegui prestar atenção em todas as respostas, hipnotizado pela aspereza sadia das perguntas. Sarcasmo. Ironia. Acidez. Na voz e na expressão dramática, o previsível também soava genial e profundo: 

- O que é a vida?
- Como você gostaria de morrer?
- Qual foi a pergunta que eu não fiz e você gostaria que eu tivesse feito?

Depois sempre vinha o abraço, "o único momento falso desse programa", e um pedacinho de literatura. Shakespeare, Verissimo, Brecht, Neruda, Clarice Lispector, Manoel de Barros e outros autores que só fui buscar porque a leitura do velhinho me despertou. Não raras vezes descobri que os textos não eram tão bonitos quanto pareciam na interpretação eloquente, pausada e fascinante que ele conseguia impor. 

Antônio era incomum porque preferia o fracasso ao sucesso. Porque, no meio da apatia e do conformismo, ensinou a cultuar a provocação. Caminhar no incerto. Idolatrar a dúvida.

Ontem à noite, como não fazia há muitos anos, preferi esperar pelo programa sentado no sofá da sala. Como nos tempos de faculdade. Primeiro pra ter certeza que ele não tinha morrido. Depois, mais importante, pra lembrar que a certeza é uma grande bobagem.

Eu gostava do Antônio.

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