quarta-feira, 27 de maio de 2015

"EU SOU CHATO!"

((escrito e publicado no dia 21/05/2015))


Morreu o Zé do Rádio, proclamado o torcedor mais chato do Brasil. Patrimônio do futebol, sujeito simples e cordial. Espirituoso. Guardava o pente fino sempre no bolso pra, de quando em quando, ajeitar o bigode grisalho. "Tô bonito?"; 

Entrevistei-o em 2013 pelo @sportvoficial e tive o privilégio de conhecer um dos melhores personagens do folclore esportivo. Na época, já cansado e distante das arquibancadas, disse que talvez fosse aquela a sua última entrevista. O bom humor não escondia a saúde frágil. "Imagina, Zé, voltarei aqui pra gente gravar a história da sua vida inteira". Ele penteou o bigode mais uma vez e sorriu antes de se despedir. 


Nunca mais voltei.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

#CHUPA!

Uma das coisas mais legais do futebol é a piada, a provocação, a mesa de boteco com uma porção de sarro e um balde cheio de cerveja. Ou o "meme", nos tempos modernos, um exercício de criatividade instantânea e espírito esportivo. Por que não compartilhar o vídeo ou a montagem que sacaneia o seu time eliminado? Não valorizar a inteligência alheia, meu amigo, é reprimir a sua própria inteligência.

Principalmente depois do fim do jogo, é sintomático dividir a atenção entre a tevê e o celular. O grupo no whatsapp já tem 284 mensagens nos últimos 15 minutos. Os times saem de campo, aumento o volume. O suposto craque diz que é assim mesmo, a equipe lutou, o adversário tá de parabéns e agora é pensar na próxima partida pra, se Deus quiser, conquistar os três pontos e retribuir o carinho dessa torcida maravilhosa. Abaixo o volume. Na linha do tempo, pipocam as hashtags de cornetagem, trollagem e cagação de regra.

Dia desses, minha amiga Luana Suzina foi brilhante ao questionar quem é mais chato no Facebook: o povo que discute política como se fosse futebol ou o povo que discute futebol como se fosse política?

Tento encontrar uma boa resposta, mas a linha do tempo segue mais vibrante que o próprio estádio. Os críticos contemporâneos diriam que assistimos ao processo de gourmetização das arquibancadas enquanto se prolifera o sucateamento do espaço público virtual. Seja lá como for, percebo que o clima ficou hostil. De novo. A madrugada ficou pequena.

Uma das coisas mais detestáveis do futebol é leva-lo a sério demais. A piada e o ódio são separados por uma linha tênue, o que me faz desconfiar que o fracasso do time (dos outros) seja mesmo só um pretexto pro sujeito ficar macho quando o amor já não bate à porta.

Parece, e só parece, que é muito #chupa  e pouco pau.