domingo, 30 de agosto de 2015

O TAXISTA E O SURDO-MUDO

PARTE 1

- Bom dia, amigo!
- Bom dia! Vamos pra Guarulhos, por favor. Aeroporto.
- Claro! Deixa eu só avisar a mulher.
- ...
- Mulher burra! Não me atende.
- ...
- Alô? Oi! Ó, vou demorar duas horas pra voltar. Tô indo pra Cumbica. Tchau.
- ...
- Já avisei logo porque, né, ela cuida do almoço. E fazer supermercado é coisa de mulher, né?
- É?
- Hómi cuida de táxi, mulher de supermercado.
- ...
- Ih, vou mudar a estação do rádio. Não gosto de ouvir esse cara...
- Sério? Por quê?
- Tem voz de bicha. Não dá, não.
Foi uma longa viagem. Mesmo em silêncio. Foram 50 minutos sem conversarmos. Faltavam 2km pro aeroporto quando ele começou a falar sobre traição e abrilhantou ainda mais nossa manhã: "Já foi o tempo em que muié tinha medo de hómi. Essa Lei Maria da Penha protege elas de todo jeito".

PARTE 2

O velhinho parecia honesto, trabalhador e, apesar de não gostar da Maria da Penha, guardava algo de pacato no rosto e na maneira como dirigia.

Eu não queria julga-lo, eu só queria queria compreende-lo. Aquele velhinho, infelizmente, é o retrato de uma fatia imensa da sociedade -- de gente que naturaliza a submissão da mulher e condena os homossexuais "porque Deus não criou Adão e Ivo". Ele era taxista, mas poderia ser jornalista, padeiro, executivo, astronauta e até segurança de boate gay.

Despachei as malas e fui tomar o café da manhã. Se eu desse papo, que outros absurdos ele teria sido capaz de compartilhar comigo? Será que voltaria pra casa, almoçaria como um porco e agrediria a esposa se ela se negasse a lavar a louça?

Enquanto eu conjecturava a desgraça do pensamento ultraconservador, alguém se aproximou às minhas costas. Percebi que vinha na minha direção. Pensei que fosse algum dos amigos que viajaria comigo e, quando levantei o rosto para saudar o companheiro, encontrei um senhor grisalho de cabelos longos e movimentos desajeitados.

Era um surdo-mudo. Resmungava e depositava em todas as mesas uma embalagem pequena, simples e confeccionada com esmero. Parecia um presente, mas era um pedido de socorro. Uma caneta, um chaveirinho do Brasil e um porta-moedas. "Sou surdo, peço sua ajuda. Cinco reais".

Ele não ouvia, mas perambulava na esperança de ser ouvido. Acompanhei a jornada trágica do surdo-mudo com os olhos marejados, ninguém queria uma caneta e um chaveirinho do Brasil. Ninguém queria um porta-moedas - porque pelo gesto curto com que dispensavam a embalagem, queriam dizer, sem ter que dizer nada, que não tinham dinheiro.

Pensei, de novo, no taxista. Lembrei de uma frase famosa e geralmente usada em tom de galhofa: "é melhor ouvir besteira do que ser surdo". Pela primeira vez, o ditado não me fez rir. Aquele homem grisalho e de movimentos desajeitados, cuja alegria custava apenas cinco reais, provavelmente diria, se pudesse dizer algo, que ouvir, ouvir qualquer coisa, não tem preço nenhum.

Passei o dia inteiro atento aos sons que a vida me proporciona.

As turbinas. O trem de pouso. A música alta do sujeito na poltrona ao lado. O choro da criança durante o almoço no restaurante. O grito de gol na televisão. A torneira, a esteira, a besteira. As onomatopeias intermitentes da cidade e do caos. O sotaque mineiro no telefone. A minha própria voz, num segundo, dizendo "eu te amo".

Dormi bem. Um pouco melancólico, é verdade, mas feliz com o privilégio de ouvir o barulho insuportável do encanamento do hotel.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

poema dos passarinhos

Passarinho,
De tanto voar sozinho
bateu asas em busca de um par

Encontrou moça bonita,
Mas, desgraça infinita!.
Ele queria o céu
Ela queria o mar

Amizade, amizade
Mas de tanto bater saudade
Redescobriram o verbo amar

Passaram a chuva e o vento
Mas, bendito momento!,
Moça bonita abraçou as estrelas
Passarinho aprendeu a nadar