segunda-feira, 30 de maio de 2016

MIGUELZINHO E O CÉU


Bom dia. O voo tem duração de aproximadamente uma hora, o tempo em rota é bom, poucas nuvens e dezenove graus. Aos clientes-fidelidade vermelho e diamante, as boas-vindas mais uma vez e a honra de tê-los conosco. Para mais informações sobre novos destinos e o programa de bônus com vantagens exclusivas, basta consultar um dos comissários a bordo. Boa viagem. 

Mas ao Miguelzinho, tosco e dócil, bastava o mais simples. Rosto colado na janela, bastava o céu. Aquele rabisco de todos os seus desenhos finalmente sairia do papel-sulfite e, em poucos minutos, não seria mais feito com lápis de cor.  Seria de verdade -- feito de algodão e anis.

Decolagem autorizada. 

Miguelzinho se voltou para a família, apreensivo, e sorriu com as mãos espalmadas no vidro. A mãe fez o sinal da cruz. O pai reclinou a poltrona antes da hora. Parecia a primeira vez deles dentro de um avião - e a simplicidade dos três me lembrou "A Última Crônica", do Fernando Sabino. Havia pureza.

- Olha, mamãe, estamos voando!

Os pais, contudo, já estavam com os olhos fechados. O homem, de sono. A mulher, de nervoso. 

- Mamãe, nós estamos indo pro céu?
- Quase lá, meu filho.
- Então vamos encontrar o vovô?
- Não, meu amor.  
- N... Não?
- O vovô a gente só encontra antes de dormir, lembra? Quando reza. 

- Olha, mamãe! O céu! O céu!

Miguelzinho vibrou diante de cada curva. Wooowww.  Achou graça na turbulência. Uhuuulll. Depois, se refestelou com o serviço de bordo. Hmmmmm. Devorou o recheio do sanduíche de presunto e queijo, deixou o pão de lado. Pediu guaraná pra acompanhar, bebeu tudo num gole só -- menos por sede e mais pela euforia.

Miguelzinho viajou, olhos brilhosos e sempre atentos.  A surpresa diante de tantos tons de azul. O encantamento diante da fragilidade das nuvens, rasgadas pelas asas de seu pássaro de ferro. A gargalhada ao notar a miudeza da vida;  os prédios e as pontes, carros, montanhas, rios que, de tão pequeninos, cabiam juntos na palma da mão. Os pés sequer tocavam o piso enquanto a imaginação planava pelo mundão sem fim.

Pouso autorizado.

Os olhos cintilaram. Chacoalhou a mãe até acorda-la. Reprovou o pai que, roncando, perdia o espetáculo do infinito. Quando o trem de pouso foi acionado, o barulho ressabiou o menino.

Acompanhou a aproximação.

São-Pau-Lô! São-Pau-Lô!
Desceu! Desceu! Desceu!
ÓóÓóóó.

Os prédios voltaram a ficar grandes. O mundo voltou a ficar chato. Quando o avião freou, a mãe agradeceu ao Espírito Santo. Miguelzinho fez bico. Não queria voltar pro chão tão cedo. Nunca imaginou que tantas impressões e possibilidades coubessem dentro de sessenta minutos.

Domingo inesquecível, aquele. Miguelzinho aprendeu a voar. 

Na segunda-feira, quando chegasse à escola, ninguém acreditaria em tudo aquilo que os olhos exclamativos haviam testemunhado. 

- Nem em sonho, mamãe. Nem em sonho.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

CORRUPÇÃO

O taxista olha pelo retrovisor. Me observa quase com obsessão.
- O senhor é deputado?
- Eu? 😳
- O senhor parece demais um deputado...
- Pela fisionomia ou elegância?
- Rosto igualzinho!
- Hmm...
- Fulano de Tal, do PP.
- Ih, não conheço.
- Eu conheço bem. E ó, posso dizer pro senhor: o hómi é corrupto, viu!
- Mais um?!
- É! É muito corrupto!
- E como cê sabe?
- Instalei "gatoNet" pra ele e pra família dele todinha. Pros amigos, todo mundo. Puxei até um gatinho pro quarto da empregada...

- Ah.
- Agora eu te pergunto: o cara que pede pra gente instalar esse tipo de coisa errada é ou não é corrupto? É o que eu tô cansado de dizer, meu amigo: a corrupção não tá só em Brasília, não! Ela tá dentro da casa das pessoas. Dentro do nosso cotidiano! Só não vê quem não quer!! E a gente, que trabalha duro, né...
É verdade, Altamir. É quase tudo verdade.