segunda-feira, 26 de setembro de 2016

VELHO BARCO

Você pode eleger o seu bar favorito porque ele tem a melhor cerveja, o melhor garçom, a melhor porção de batatas. Ou, de repente, nada disso. O meu, por exemplo, tem as minhas melhores memórias.

The Barge
Dublin 2, Ranelagh.

Era uma esquina discreta, que não assanhava estranhos e onde não brilhava estrela no mapa de bolso. Era o fim de uma rua calma e o meio do curso de um canal estreito.

Em dias de sol, a gente podia beber lá fora. Nos outros trezentos e sessenta, era um legítimo pub irlandês. Rústico. Escuro. Intimista. Ora soturno, ora provocador. 

The Barge. Em português, O Barco.

O Barco, meu porto seguro. 

Não sei exatamente como foi que eu cheguei ali, mas quando fui embora tive o cuidado de jogar migalhas pelo caminho para que pudesse voltar de vez em quando.

Voltei. Em dois anos e meio, vivi (e morri) muitas vezes naquele bar.

Meu primeiro Dia de São Patrício. Meus primeiros amigos.  Meus aniversários. Minha despedida. A despedida de muitos dos meus primeiros amigos. As vitórias e o eliminação do Brasil na Copa do Mundo em 2010 -  única vez, aliás, que chorei por uma seleção que nunca me despertou qualquer sentimento.

Quando vejo uma foto qualquer do meu bar favorito, cada uma das janelas é um mosaico de pessoas e lembranças costuradas pelo tempo. 

As festas de sexta-feira com o pessoal do trabalho. Gente do Brasil, da Espanha, Itália, Polônia, Suíça, Alemanha, Coreia do Sul, França, Hungria, Eslováquia, Argentina. Gente de lugar nenhum. 

Aquele bar é o símbolo de um tempo em que eu me desabitei. Fui estrangeiro de mim. Recortei meu caminho, arrisquei passos mais firmes e desprezei o que podia ser previsível. Troquei o jornalismo pelo chão de um supermercado porque eu precisava de outros pontos de vista. Me impus a condição de levar minha própria vida de uma forma mais interessante para que só depois eu me atrevesse a escrever sobre a vida dos outros.

E sempre que eu ia embora do Barge, a pé, no frio, sozinho, margeando o canal por vinte ou trinta minutos na madrugada,  eu sabia que muitos outros "eus" estavam nascendo, morrendo e, de alguma forma intensa, ficando em mim. Liberdade e embriaguez misturadas nos levam à sensação vaga de felicidade - e talvez nada seja mais verdadeiro que isso. 

Hoje, quando eu bebo um gole de cerveja preta, eu não mato apenas a minha sede, mas a minha saudade. O Barge guarda muita, muita saudade. Porque ele me faz lembrar, acima de tudo, do melhor presente que a Irlanda me deu: Ernani Lemos, meu irmão mais velho. Não foram poucas as vezes em que o meu telefone tocou e o nosso diálogo breve sequer precisou mencionar o nome do nosso destino. 

- Irmão? Como tá o fígado?
- Desidratado, bicho.
- Gravíssimo! Precisamos remediar!!
- Essa vida ainda me mata...
- Conta mais, malandro.  
- Daqui a pouco! 
- No bom e velho?
- Fechado. Daqui uma hora tô lá.

Era mentira. Sempre cheguei atrasado, mas, pra minha sorte, ele nunca desistiu de esperar. Permitiu, assim, que a gente dividisse nossas (des)crenças e inquietudes, mas também o nosso entusiasmo e os planos para um futuro que, honestamente, àquela altura, não nos importaria se não chegasse. Se tudo desse errado, afinal, a gente sabia que pelo menos os copos continuariam ali.

Segredos. Pecados. Projetos. Lágrimas. Gritos de gol. Todas as nossas bobagens, ali dentro, ganharam contornos épicos. Até que um dia eu fui pro Brasil e, logo depois, o Ernani foi pra Inglaterra. 

Quando surge uma alegria ou uma angústia a ser compartilhada, agora, corro pra minha linha do tempo e sigo as migalhas de novo. Peço mais uma Guinness, por favor. Apoio os cotovelos no balcão de madeira e fico esperando o meu amigo chegar. Brindo sozinho e o garçom não disfarça; ele tem certeza que sou maluco, mas eu sei que o Ernani, em algum lugar do mundo, também está ali comigo. 

A gente nunca soube como ir embora e abandonar o nosso velho barco.