sábado, 31 de dezembro de 2016

CARTA DE ANO NOVO


Dona Ilaídes,

Me deixa te dar um abraço?
Sem câmera. Sem foto. Sem legenda.

A senhora só queria nos confortar, mas conseguiu bem mais do que isso. Foi de verdade, ao vivo, do fundo do seu coração. Justo a senhora. Enquanto esperava para enterrar seu filho, tristeza que não se mede, conseguiu estender as mãos a todos nós -- que vivemos de histórias, de voos, de asas. Viajadores, observadores, naquele momento contadores de incontáveis dores.

Com a voz abafada no ombro do meu amigo, a senhora disse que a gente também fez a carreira de todos aqueles meninos. Bondade sua. A gente só teve o privilégio de narra-las ou escreve-las. Danilo! Danilo!! Danilo!!! Danilo!!!! Sobre o gramado em que o seu menino virou homem, quase santo, a senhora nos concedeu o milagre de ser humana. Fez aquilo que ele sempre pulou pra evitar: um golaço.  

A senhora escolheu, ainda bem, um dos melhores abraços do mundo. Verdadeiro. Caloroso. Apertado. Acho até que nem foi por acaso; quem se aproxima do Guido logo percebe que ele transborda amor e boa energia. A senhora soube reconhecer aquele peito aberto e deixou a sua mensagem com pureza e com-paixão. Mais do que dividir conosco a solidariedade de mãe orfã, divina simplicidade, a senhora multiplicou a nossa esperança nos homens aqui de baixo.

Se eu pudesse escolher, 2017 seria feito apenas dessa porção de estrondosas delicadezas contidas no seu abraço.

Feliz Ano Novo, Dona Ilaídes