quinta-feira, 30 de março de 2017

CASO REAL



A primeira fila foi no xerox.
Quinze minutos.

A segunda fila foi no Detran. Fila da triagem.
Mais quinze.

- Boa tarde. PID, por favor.
- Quê?
- Permissão Internacional para Dirigir.
- Documentos.
- Tudo aqui!
- CNH e CPF, por favor.
- Os dois aqui.
- Comprovante de residência?
- Mas eu liguei no Disque-Detran e..
- A moça disse que o senhor só precisava de CNH e CPF.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- Mas...
- Aquela fila ali, ó.
- Que tem?
- Entra na internet, senhor, e pega uma cópia de qualquer conta que comprove sua residência, .

A terceira fila, então, foi a do acesso à internet.
Trinta minutos.

- Conta de luz, senhor?
- Não. Não tá no meu nome.
- Telefone?
- Telefone. Pode ser.
- Qual operadora?
- TIM.
- TIM sem sistema, senhor.
- Sério?
- Próximo!
- Peraí! Eu PRECISO desse documento!!
- Cartão de crédito?
- Não sei se é seguro usar minha senha do banco aqui.
- Há outra opção, senhor?
- Acho que n...
- Próximo!
- Moça, peraí! Eu PRECISO de uma solução!!
- Qual o banco, senhor?
- It....
- Itaú sem sistema, senhor.
- Como assim?!
- Sinto muito, senhor.
- Mas acho que o problema é a internet de vocês.
- Próximo!

A quarta fila, então, foi pelo telefone. Ligação urgente pro banco.
Mais vinte minutos.

- Gerente, boa tarde. Preciso de um favor.
- Pois não.
- Uma cópia da fatura do cartão de crédito. Preciso comprovar meu endereço.
- Claro!
- Consegue mandar por e-mail?
- Hm. Sistema fora do ar. Não tem previsão, mas assim que voltar eu te mando!

Mais trinta minutos.
Mandou.

A quinta fila foi, de novo, a do acesso à internet.
Mais quinze minutos.

- Voltei.
- Deu certo, senhor?
- Recebi por e-mail. Só imprimir.
- Impressora tá fora de sistema, senhor.
- Hã?!
- Manda imprimir nessa outra.
- Ok.
- Próximo!

A sexta fila foi, de novo, da triagem.
Mais dez minutos.

- Voltei.
- Qual é o seu documento, senhor?
- PID.
- Pitty?
- PID. Permissão Internac...
- Não é aqui, não, senhor.
- Mas a m...
- A moça disse que era essa fila.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- E agora?
- Ali, ó!
- Mas...
- Próóximo!

A sétima fila. Mais dez minutos.

- Boa tarde, moça. Tudo bem?
- Oi.
- PID, por favor.
- Documentos.
- Tudo aqui!
- CNH?
- Na mão.
- Só preciso dela.
- Mas e o CPF?
- Não precisa.
- Mas... Mas... Mas e o comprovante de residência?!
- Não precisa.
- Mas a m...
- A moça ali do outro balcão falou que precisava.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- Moça, eu perdi mais de uma h...

[carimbo]
PUF. PUF, PUF.

- 260 reais. Paga ali naquele setor e volta.
- Dá pra pagar no cartão?
- Costuma dar, mas hoje é só dinheiro.
- Por quê?
- Sistema fora do ar.
- É sério?
- Tem um caixa eletrônico ali no shopping.
- Mas...
- Pró-xi-mô!

Fila no elevador pra descer.
Fila na escada.
Fila no corredor do shopping.

Fila na faixa de pedestre.
Fila no caixa eletrônico.

Fila pra voltar ao Detran.
Fila no elevador pra subir.
Fila na escada.
Fila nos caixas de pagamento.

O segurança me breca diante da porta.

- Pagamento? Hmm. Banco tá fora de sistema.
- Mas vou pagar com dinheiro.
- Sem sistema.
- Mas não era o sistema do cartão?
- Era. Mas agora caiu geral.

Fila de pagamentos.
Fila de funcionários confusos.

Fila. Fila. Fila.
Depois de muitas filas, documento em mãos.
O que poderia demorar poucos minutos demorou muitas horas. Um dia inteiro.

Ao voltar pra casa, a caminho da fila do pão, peguei a fila de carros do engarrafamento.  Pessoas com filas de problemas na cabeça. Ouvi a buzina e o estranhamento entre dois motoristas, um homem e uma mulher que disputavam um pedaço de rua. O bate-boca seguiu até que o sujeito macho pôs fim à briga -- e a última fila do dia me mostrou que o sistema tá realmente fora do ar:

- Ô, sua fila da puta! Vai pilotá fugão! 

segunda-feira, 6 de março de 2017

CATARINA

O sol de janeiro ardia em Belo Horizonte.

As crianças se divertiam no parque -- embrenhadas no verde e distantes do centro da capital mineira. No colo dos pais ou no chão, elas apontavam, queriam, despertavam. Era um momento raro em que todas as opções do mundo não cabiam na palma das mãos.

Pocotó. Tirolesa. Ararinha azul. Tucano. Marreco. Batata frita. Pedalinho. Esquilo. Picolé.

Desejei voltar à infância, menos pelo encantamento com as atrações e mais pelo sincero desejo de não enfrentar filas ou não sofrer com o calor. Crianças não pegam filas e não se importam com o calor. Desejei voltar à infância e, num sorriso largo e repentino, voltei. Avistamos uma tartaruga – e foi esse bicho sem cores e pouco vistoso que me encheu de alegria. “Catarina”, falei só pra mim, enquanto me aproximei das minhas primeiras memórias de vida.

Em seus passos diminutos e solitários, a tartaruga do parque passou indiferente por nós e pela ternura dos meus pensamentos distantes. Catarina foi nosso primeiro animal de estimação, presente da Tia Graça quando meu irmão nasceu e eu ainda tinha só dois anos. Crescemos habituados, portanto, com aquilo que era exótico pra quase todos -- mas pra gente era só a parte mais cascuda da família. Apesar do silêncio permanente, da mudez inata, Catarina sempre esteve conosco: o papo pulsando e os olhinhos lustrosos atentos àquele mundo bem mais rápido que ela.  

A gente fazia churrasco, jogava bola, brincava no tanque de areia, nadava na piscininha-feijão, mas a Catarina era a verdadeira dona do nosso quintal. O pratinho com almeirão, o mamão fatiado, a água sempre reposta. Às vezes a gente ouvia alguém dizer que era proibido – e eu passava noites em claro mirabolando planos pra fugirmos juntos caso o Ibama batesse à porta.

Catarina era a nossa promessa de eternidade. Mamãe, quanto vive uma tartaruga? Ficávamos encantados com a ideia de que todos morreríamos e ela continuaria ali. Não era uma possibilidade; era uma certeza.  Mais de cem anos, mamãe? Mais de duzentos?

Um dia, Catarina aprendeu a correr. Verdade. Não podia ver um dedão descalço que disparava -- às vezes ensaiando uma mordida amistosa, às vezes observando com agitação o que parecia ser um parente perdido.  Um dia, Catarina aprendeu a subir degraus. Passou a romper o muro que separava o espaço dela da sala de casa. Passamos a colocar obstáculos – mas um dia a Catarina também aprendeu a empurrar caixas e cadeiras. Era óbvio: ela já não queria ser apenas uma tartaruga. Quando ela transou com meu gorila de brinquedo e deixou o quintal todo sujo, ficamos boquiabertos. Catarina era macho.

Mas nosso grande erro não foi passar a vida acreditando que ela era fêmea; foi acreditar que ela providenciaria nossos enterros e depois cuidaria da casa. A gente se esqueceu que a Catarina não era gente. E um dia, tentando subir um degrau ainda mais alto, ela se desequilibrou e caiu de ponta-cabeça. O peso que ela jamais se importara em carregar agora a impedia de se mexer. Não havia mais ninguém em casa naquela hora. Quando o veterinário espetou um palito e ela não reagiu, a cabeça guardada dentro do casco, toda a nossa infância também ficou presa ali dentro. Catarina morreu esturricada pelo calor rioclarense.

O sol se pôs em Belo Horizonte. Escondi a lágrima e fui embora do parque depois de acenar escondido para aquela tartaruga que não era a minha. Naquela noite não consegui dormir, importunado pela melancolia da finitude. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

BOCA DE LOBO

São Paulo, quatro da tarde.
Viaduto do Chá.

O maltrapilho cambaleia, de tanta cachaça barata. Arrasta consigo o mal cheiro e um par de sapatos desbeiçados amarrado no pescoço. Saca uma embalagem plástica da cintura. 

- Olha aqui, patrão! Olha aqui que eu vou te mostrar que também sou gente!!

O documento intacto revela a identidade daquele homem que, se nome nenhum tivesse, não faria diferença aos passantes da cidade grande. Por que chamar por alguém que não se vê nem se ouve? Se atrapalhar o caminho, todo mundo sabe, é só empurrar e ele cai. 

Jadison, "com i, mesmo", Jadison Domingos. O rosto na cédula é outro, não sei se porque bem mais jovem ou se apenas porque mais limpo. 

- Faz uma reportagem comigo! Eu tenho nome e tudo!
- Ah é? Você vai contar sua história pra mim?

O homem titubeia. Os olhos semicerrados buscam qualquer lucidez que possa reavivar a memória.

- Tá gravando, patrão?
- Vou gravar aqui, ó, na cabeça.
- E vai passar onde?

Quem titubeia, agora, sou eu. 

- Vai depender do tamanho da sua história, Jadison.

Silêncio. Apesar de ter nome, ele receia que não tenha história alguma pra me contar; provavelmente sabe que histórias ordinárias não vendem muito jornal. Quem sabe se um dia ele mordesse o cachorro...

- Tô nessa há quinze anos, patrão.
- Sozinho?

E o Jadison dispara a gargalhar. 
HA HA HA HA!!!!

- Eu e ela! Eu e ela!
- Quem mais?
- Aqui, ó! Água que passarinho não bebe! HA HA HA HA!!!!

Ele deixa a sacola plástica cair no chão. Mais um direito se vai pela calçada. O título de eleitor amassado como se fosse lixo é o golpe mais forte que ele consegue desferir nos inimigos. 

- Que valor tem isso aí? É uma arma pra gente botar os ladrões no poder.
- Mas você pode escolher seu prefeito, pode cobra-lo e...
- Que prefeito? O hómi que tá chegando detesta a gente.
- Fala mais sobre isso...
- Vai exterminar os pobre tudo, cê vai ver. Vou escorrer pelo ralo feito papel de bala. 

No bolso direito, desentoca um punhado de embrulhos prateados, balas que jamais disfarçaram o mau hálito, e decide encenar a própria tragédia. Atira tudo no chão, gargalha de novo. HA HA HA HA!!!!

- Ô, Jadison, no meio da calçada?
- Que tem, patrão?
- Esse lugar também é seu. É de todo mundo.
- O senhor tá certo! 

E, com os pés, varre todos os papeizinhos desmilinguidos até a boca de lobo mais próxima. 

- Na primeira chuva, patrão, isso aqui vira enchente. E debaixo dágua, aposta comigo?, todo mundo vira merda! 
HA HA HA HA!!!! HA HA HA HA!!!!

Constato o lugar-comum: o homem pertence à rua, mas a rua não o pertence. É um velho intruso, ainda que nem seja tão velho. Começa a chover. As janelas da prefeitura se fecham às suas costas. 

Quando o céu pretejou e todo mundo sumiu, o Jadison escorreu. 

Foi assim. Perdi a oportunidade de contar a incrível história daquele sujeito que tinha nome e tudo -- mas se nome não tivesse, não teria mais nada.