sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

BOCA DE LOBO

São Paulo, quatro da tarde.
Viaduto do Chá.

O maltrapilho cambaleia, de tanta cachaça barata. Arrasta consigo o mal cheiro e um par de sapatos desbeiçados amarrado no pescoço. Saca uma embalagem plástica da cintura. 

- Olha aqui, patrão! Olha aqui que eu vou te mostrar que também sou gente!!

O documento intacto revela a identidade daquele homem que, se nome nenhum tivesse, não faria diferença aos passantes da cidade grande. Por que chamar por alguém que não se vê nem se ouve? Se atrapalhar o caminho, todo mundo sabe, é só empurrar e ele cai. 

Jadison, "com i, mesmo", Jadison Domingos. O rosto na cédula é outro, não sei se porque bem mais jovem ou se apenas porque mais limpo. 

- Faz uma reportagem comigo! Eu tenho nome e tudo!
- Ah é? Você vai contar sua história pra mim?

O homem titubeia. Os olhos semicerrados buscam qualquer lucidez que possa reavivar a memória.

- Tá gravando, patrão?
- Vou gravar aqui, ó, na cabeça.
- E vai passar onde?

Quem titubeia, agora, sou eu. 

- Vai depender do tamanho da sua história, Jadison.

Silêncio. Apesar de ter nome, ele receia que não tenha história alguma pra me contar; provavelmente sabe que histórias ordinárias não vendem muito jornal. Quem sabe se um dia ele mordesse o cachorro...

- Tô nessa há quinze anos, patrão.
- Sozinho?

E o Jadison dispara a gargalhar. 
HA HA HA HA!!!!

- Eu e ela! Eu e ela!
- Quem mais?
- Aqui, ó! Água que passarinho não bebe! HA HA HA HA!!!!

Ele deixa a sacola plástica cair no chão. Mais um direito se vai pela calçada. O título de eleitor amassado como se fosse lixo é o golpe mais forte que ele consegue desferir nos inimigos. 

- Que valor tem isso aí? É uma arma pra gente botar os ladrões no poder.
- Mas você pode escolher seu prefeito, pode cobra-lo e...
- Que prefeito? O hómi que tá chegando detesta a gente.
- Fala mais sobre isso...
- Vai exterminar os pobre tudo, cê vai ver. Vou escorrer pelo ralo feito papel de bala. 

No bolso direito, desentoca um punhado de embrulhos prateados, balas que jamais disfarçaram o mau hálito, e decide encenar a própria tragédia. Atira tudo no chão, gargalha de novo. HA HA HA HA!!!!

- Ô, Jadison, no meio da calçada?
- Que tem, patrão?
- Esse lugar também é seu. É de todo mundo.
- O senhor tá certo! 

E, com os pés, varre todos os papeizinhos desmilinguidos até a boca de lobo mais próxima. 

- Na primeira chuva, patrão, isso aqui vira enchente. E debaixo dágua, aposta comigo?, todo mundo vira merda! 
HA HA HA HA!!!! HA HA HA HA!!!!

Constato o lugar-comum: o homem pertence à rua, mas a rua não o pertence. É um velho intruso, ainda que nem seja tão velho. Começa a chover. As janelas da prefeitura se fecham às suas costas. 

Quando o céu pretejou e todo mundo sumiu, o Jadison escorreu. 

Foi assim. Perdi a oportunidade de contar a incrível história daquele sujeito que tinha nome e tudo -- mas se nome não tivesse, não teria mais nada.  

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