segunda-feira, 6 de março de 2017

CATARINA

O sol de janeiro ardia em Belo Horizonte.

As crianças se divertiam no parque -- embrenhadas no verde e distantes do centro da capital mineira. No colo dos pais ou no chão, elas apontavam, queriam, despertavam. Era um momento raro em que todas as opções do mundo não cabiam na palma das mãos.

Pocotó. Tirolesa. Ararinha azul. Tucano. Marreco. Batata frita. Pedalinho. Esquilo. Picolé.

Desejei voltar à infância, menos pelo encantamento com as atrações e mais pelo sincero desejo de não enfrentar filas ou não sofrer com o calor. Crianças não pegam filas e não se importam com o calor. Desejei voltar à infância e, num sorriso largo e repentino, voltei. Avistamos uma tartaruga – e foi esse bicho sem cores e pouco vistoso que me encheu de alegria. “Catarina”, falei só pra mim, enquanto me aproximei das minhas primeiras memórias de vida.

Em seus passos diminutos e solitários, a tartaruga do parque passou indiferente por nós e pela ternura dos meus pensamentos distantes. Catarina foi nosso primeiro animal de estimação, presente da Tia Graça quando meu irmão nasceu e eu ainda tinha só dois anos. Crescemos habituados, portanto, com aquilo que era exótico pra quase todos -- mas pra gente era só a parte mais cascuda da família. Apesar do silêncio permanente, da mudez inata, Catarina sempre esteve conosco: o papo pulsando e os olhinhos lustrosos atentos àquele mundo bem mais rápido que ela.  

A gente fazia churrasco, jogava bola, brincava no tanque de areia, nadava na piscininha-feijão, mas a Catarina era a verdadeira dona do nosso quintal. O pratinho com almeirão, o mamão fatiado, a água sempre reposta. Às vezes a gente ouvia alguém dizer que era proibido – e eu passava noites em claro mirabolando planos pra fugirmos juntos caso o Ibama batesse à porta.

Catarina era a nossa promessa de eternidade. Mamãe, quanto vive uma tartaruga? Ficávamos encantados com a ideia de que todos morreríamos e ela continuaria ali. Não era uma possibilidade; era uma certeza.  Mais de cem anos, mamãe? Mais de duzentos?

Um dia, Catarina aprendeu a correr. Verdade. Não podia ver um dedão descalço que disparava -- às vezes ensaiando uma mordida amistosa, às vezes observando com agitação o que parecia ser um parente perdido.  Um dia, Catarina aprendeu a subir degraus. Passou a romper o muro que separava o espaço dela da sala de casa. Passamos a colocar obstáculos – mas um dia a Catarina também aprendeu a empurrar caixas e cadeiras. Era óbvio: ela já não queria ser apenas uma tartaruga. Quando ela transou com meu gorila de brinquedo e deixou o quintal todo sujo, ficamos boquiabertos. Catarina era macho.

Mas nosso grande erro não foi passar a vida acreditando que ela era fêmea; foi acreditar que ela providenciaria nossos enterros e depois cuidaria da casa. A gente se esqueceu que a Catarina não era gente. E um dia, tentando subir um degrau ainda mais alto, ela se desequilibrou e caiu de ponta-cabeça. O peso que ela jamais se importara em carregar agora a impedia de se mexer. Não havia mais ninguém em casa naquela hora. Quando o veterinário espetou um palito e ela não reagiu, a cabeça guardada dentro do casco, toda a nossa infância também ficou presa ali dentro. Catarina morreu esturricada pelo calor rioclarense.

O sol se pôs em Belo Horizonte. Escondi a lágrima e fui embora do parque depois de acenar escondido para aquela tartaruga que não era a minha. Naquela noite não consegui dormir, importunado pela melancolia da finitude. 

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